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De moto com a mãe na garupa

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Por Diego Melz: – No início de 2014 fui de moto para o Atacama, em minha primeira grande viagem internacional. Sedento por uma nova aventura – como todo motociclista –, comecei a matutar uma viagem para aquela bela região, mas queria algo especial. Resolvi explorar mais a Cordilheira dos Andes e levar comigo a mulher mais importante de minha vida: minha mãe, Helga Melz. Três amigos, Alaor Zenere, Eduardo dos Passos e Maurício da Silva (até então virtuais), todos de Caxias do Sul (RS), juntaram-se a nós.

Partimos de Guarujá do Sul (SC) e nos dois primeiros dias rodamos 1.382 km até Termas de Río Hondo. Nossas motocicletas, todas BMW F800GS, se comportaram bem naquelas rodovias cheias de reta. A moto do Maurício estava com as rodas desbalanceadas, tremendo muito, mas não encontramos lugar para reparar o problema. Com cautela, fomos em frente assim mesmo. O cenário então começou a mudar. Rumamos em direção à bela Tafí del Valle, por meio de uma estrada sinuosa e com uma floresta densa e úmida. Chegando em Amaichá del Valle o ambiente mudou completamente, com muitos cactos. À beira da Ruta 40 conhecemos as Ruínas de Quilmes, povo antigo que resistiu bravamente durante 50 anos às investidas espanholas e incas. Acampamos em Cafayate, famosa pelos vinhedos, mas naquela noite, devido à festa de Carnaval, mal pudemos dormir. Já em Quebrada de las Flechas vimos montanhas talhadas pela erosão e ação dos ventos formando picos de 70 metros de altura inclinados à 45º. Nunca tínhamos visto algo igual!

Nosso planejamento em direção aos Andes passava pela subida da Cuesta del Obispo, que contorna enormes e íngremes montanhas de verde vegetação. No topo, a 3.450 metros de altitude, há uma capela com vista para o vale e a partir daí o clima úmido mudou completamente e novamente a aridez tomava conta. É impressionante como o cenário se modifica em poucos quilômetros. Entramos no Parque Nacional Los Cardones e nos admiramos com os multicoloridos cerros e seus cactos com mais de 5 metros de altura e 300 anos.

O passo seguinte deveria ser tranquilo, cerca de 150 km de rípio até San Antonio de los Cobres. Porém, durante a noite, choveu e o rio que corta a Ruta 40 subiu. Ficamos na dúvida de tentar ou não atravessá-lo e minha mãe, cautelosa, disse: “acho que não vai dar, é perigoso, vamos voltar”. Mas tentamos, ignorando o instinto dela. No caminho as informações eram desencontradas, uns diziam que motos passavam, outros que não. Descobrimos que o rio destruiu a rodovia, fazendo-nos retornar. Aumentamos o percurso e chegamos tarde ao destino. Preocupado, perguntei a ela como estava se sentindo. “Muito bem”, respondeu, antes de completar: “Se tivessem me ouvido, teríamos chegado aqui antes”. Só faltou puxar nossas orelhas.

Já estávamos há quatro dias serpenteando os Andes e era hora de atravessarmos a cordilheira por meio do Passo Sico. Chegamos à divisa com o Chile e uma grande alegria tomou conta de nós. Mas o rípio nos castigava. Tínhamos que andar com muita cautela, sempre concentrados. Continuamos para a Bolívia pelo Passo Hito Cajón para chegar à Laguna Colorada. Após 120 km, chegamos a 5.040 metros de altitude. A estrada piorou muito, estávamos com medo de nos perdermos naquele deserto. O frio era terrível e por precaução retornamos.

Paso San Francisco era o destino da vez. Neste dia saímos cedo e fazia frio. A estrada era boa até a aduana chilena, onde piorou, com costeletas, rípio e areia. Tínhamos que andar devagar, a tensão nos braços era enorme e minha mãe fazia massagens para relaxar a cada parada. Esta é uma das vantagens de ter levado a mãe! Ela não se queixava de absolutamente nada, apenas comentava a todo instante como era maravilhosa a viagem. Em Fiambalá, furou o pneu da minha moto, por sorte perto de uma borracharia. Ali nos despedíamos da Cordilheira dos Andes e iniciamos a volta para casa.

Foram 16 dias maravilhosos e cerca de 8.000 km. Passamos por lugares inimagináveis e descobertas. Resgatei conversas e experiências com minha mãe nessa cordilheira que é simplesmente mágica! Quem sabe ainda farei uma viagem assim com o meu pai…

Fonte: revistaduasrodas

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